quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O menino e o Vaga-Lume

Certa vez, uma mãe tinha uma filha que perguntou a ela o que era o Amor, ela sem conseguir explicar direito o que era, contou uma historinha à menina que a ouviu atentamente...
           
Filha, era uma vez um menino sapeca.

            A menina riu, mas continuou ouvindo atentamente...

            Esse menino vivia em uma floresta e adorava a sensação de liberdade que sentia ao subir nas árvores, a correr pelas matas, se banhar na cachoeira... quando tinha fome pescava o suficiente para saciar suas necessidades; quando tinha sede, comia frutas e bebia da água cristalina que caía das cachoeiras... era feliz. Seus pais moravam em uma árvore e deixavam seu filho assim, livre, desde que perceberam que ele nascera para a floresta e ali era o  seu lugar.
            Desde muito pequenino era sempre acompanhado pelos animaizinhos da floresta, em especial um vaga-lume que o adorava pelo jeito, pois sempre estava com ele. Engraçado que parecia que aquele pequeno vaga-lume nunca apagava sua luz e, às vezes, quando o menino tropeçava ou fazia estripulia, a impressão     que tinha era que ele ria dele, pois suas ‘luizinhas’ ficavam piscando como se ele estivesse se dobrando em gargalhadas...
O menino cresceu. Tornou-se um  rapaz, forte, encantador; mas o que mais o deixava belo é que mantinha ainda a pureza que adquirira com sua liberdade e respeito pelas coisas de Deus.
O homem civilizado, nesse meio tempo, estava cada dia mais desvendando as matas e descobrira o local onde o menino morava. Trouxeram o menino daquele espaço a um belo local com ruas, estradas, prédios e shoppings. O menino, curioso por natureza, adorava coisas novas e encantou-se com tantas novidades... No começo nem sentiu falta de sua antiga vida, de seus animaizinhos amigos até porque o pequeno vaga-lume, seu eterno companheiro, permanecia ali entre as coisas dele... às vezes sumia; mas, quando mais precisava ou se sentia só, lá aparecia aquela ‘luizinha’ de sempre... também, quando ele aprontava alguma, o vaga-lume continuava a gargalhada de sempre até que um dia...
Um dia o menino se apaixonou e esqueceu seu companheiro.
Havia tantas belas mulheres que ele via pelos shoppings, ruas e avenidas e havia uma em especial que o encantou. O menino, que era uma celebridade por ter sido descoberto nas virgens matas, era conhecido e admirado por todos, por ela também. Iniciaram um romance, ela queria que ele a levasse aos shoppings, gostava de passear com o menino, viajaram, se divertiram, se beijaram...
            O tempo ia passando e um dia o menino olhou-se no espelho e lembrou-se de seu reflexo nas águas do lago da cachoeira... o menino assustou-se, estava muito diferente... seu cabelo antes espalhado pelo vento das matas, era agora arrepiado por cremes e tinturas; sua face, antes corada e brilhante do sol, estava pálida e seca pela névoa da cidade;  seus lábios, que esboçavam sorrisos e caretas rodeado de animaizinhos, formava agora um risco pálido que, por mais que tentasse recobrar os traços de outrora, conseguia somente esboçar um ruído que mais parecia um uivo que uma risada... neste momento esperou para ouvir a gargalhada do velho vaga-lume, mas não mais encontrou o companheiro.
            Então o menino começou a pensar em sua vida... em tudo que ele havia feito e conhecido ... em como ele era , em como ele foi e em como ele estava agora...
Jamais conseguiria ser de volta aquele menino... muito mais coisas havia conhecido, mas sabia também que não era como estava agora.... quem seria então o homem-menino?
Ele passou a buscar a si mesmo... sabia que era isso que precisava fazer, chegara a hora de encontrar-se. O vaga-lume que há muito desaparecera... na busca interior do menino desejou   ardentemente que o velho amigo aparecesse, então, quando acordou o homem-menino, estava ali o velho lumieiro.
O menino intrigado, começou a conversar e pedir ajuda ao velho companheiro... o vaga-lume, que nos últimos tempos mostrava uma ‘luizinha’ fraca, iluminou-se de surpresa, rodopiou pelo quarto e iluminava lindamente o menino...
Misteriosamente, o rapaz compreendia o luzeiro e seguiu correndo atrás do velho companheiro... Este voava, subia, descia e empurrava o homem-menino... às vezes, o jovem o perdia de vista e então ele estava sentadinho no bolso próximo ao coração do menino... correram dias e dias e, nas noites, o serzinho iluminava o tempo todo o companheiro... Então, depois de muita caminhada, chegaram enfim ao antigo lugarejo.... o vaga-lume, já bem cansado, encostou-se em uma árvore e apontou entre algumas folhagens o lugar ao companheiro.
Lentamente o homem-menino seguiu até aquele espaço, afastou as grossas folhas e viu com dor  e alegria a antiga casa onde crescera.
Volveu os olhos ao colega que, cansado, fez um gesto que incentivava a ir em frente o companheiro.
O rapaz então, recordando tudo que aprendera, saltava entre as folhagens, corria pelas estradas, revia seus antigos companheiros... já se preparava para entrar na cachoeira, quando resolveu sentar um pouco e chamou para conversar com ele seu velho luzeiro.
- Vem aqui...
- Eu?
- Sim... eu nem sei o seu nome...
            - Sou  Andara.
- Andara? É uma menina?
            - Sim... uma menina.
            - Uma menina vaga-lume?
            Ela ficou em silêncio.
- Você é aquele mesmo vaga-lume...
            - Sim.
            - E por que sempre esteve comigo?
            - Quando eu nasci, Deus me disse que era pra eu cuidar de um menino. Quando perguntei a Ele quem seria, Ele me mandou voar pelas matas, buscar nas florestas e, quando eu encontrasse o mais belo de todos, esse seria o meu menino. Foi assim que eu o encontrei.
            - Continuo sendo esse menino?
- Não importa seu tamanho, não importa seus disfarces, sempre que o vejo reconheço que é você mesmo o meu menino. Conheço tudo de você... quando está triste, sofro contigo... quando está alegre, quero fazer parte de seu sorriso e, quando chora, quero acolher-te em meus braços e dar todo meu amor de menina.
            O menino então ao olhar para ela compreendeu que seu mundo... que todas as suas alegrias só foram completas quando estava ao lado desse serzinho.
O homem-menino então olhando em seus olhos... trouxe-a para perto de seus lábios e beijou com amor suas asinhas...
    Fez-se então na floresta uma explosão de luzes tão grande que, quando o homem-menino, conseguiu ver novamente, havia ao lado dele uma bela menina.
  Juntos seguiram correndo, brincando nas matas e para todo sempre foi feliz com seu vaga-lume o homem-menino.
                 
- Nossa, mãe, que história linda!!! Eles foram felizes para sempre??
- Para sempre, filha, entendeu agora o que é o Amor?
- A senhora me ama também?
- Filha, eu contei essa historinha pra você, porque eu te amo e você é a coisa mais preciosa da minha vida.





 Texto de Della Coelho



Mistério sob a Lua



Era ainda outono e ela caminhava pela relva coberta pelas folhas secas, às vezes abaixava-se para pegá-las distraidamente dissolvendo-as em suas frágeis mãos, sentindo a rispidez árida como se aquela aspereza pudesse aos poucos confundir-se com a dor mais profunda que fluía em seu coração. Já era o outono e ainda estava sozinha... ele não chegara.
Estela mantinha-se fiel... frágil era a promessa, mas nada tinha de frágil o amor que sentia em seu coração. Vira-o em uma noite estranha, cavalgava nas redondezas, próximo de sua casa. Não compreendia como somente ela o escutara, já que moravam no campo e seu pai sempre fora atento a possíveis invasores.
Naquela noite misteriosamente o calor incomodava seu coração, acordou banhada nos lençóis e encantou-se com a lua que refletia o nu de sua pele em meio às cobertas convidando-a a um passeio no frescor da noite. Sem hesitar saiu para a brisa noturna sentindo com prazer o frescor inundar-lhe. Caminhou lentamente olhando as estrelas e sentou-se embaixo de um florido Ipê. Distraída sobressaltou-se ao ouvir muito próximos de si alguns firmes passos.
- Quem está aí?
E foi então que pela primeira vez ela o viu... aqueles olhos.
Estava de botas, camisa escura, manchada sob o rústico casaco, mas o que realmente ela viu foram aqueles olhos azuis a brilharem sob o chapéu.
- Estela.
- Sim...
- Me espera.
- Mas...
Ele desapareceu na escuridão.
Desde então tudo a tem transtornado! Não era um sonho, ela sabia que não! Quem era ele que a conhecia? Algum mago? Ou fantasma?
Não! Aqueles olhos eram reais!
Tentou conversar com algumas pessoas da redondeza, mas ninguém naquela noite havia visto um homem de longos cabelos negros e olhos azuis cavalgar sozinho pela região. O mais misterioso é que, naquela noite, exceto seu pai, a maioria dos moradores próximos ficaram acordados até a madrugada a festejarem, pois comemoravam a festa de Nossa Senhora da Conceição.
Estela não compreendia, jamais o tinha visto antes, mas sabia que o conhecia. Sabia como seria sua vida com ele antes mesmo de ouvi-lo, foram aqueles olhos... aqueles olhos foram sem dúvida a sua salvação.
A donzela continuava seus afazeres, mas sempre lhe pregava a distração. Passou a ficar mais recolhida e por vezes se encontrava sob as flores a olhar a clareira onde ele aparecera.
Esperar até quando? Por que não vem?
Não conseguia afastar-se dali, seus pais um dia faleceram, seus irmãos foram à cidade levar à escola os filhos que cresceram e ela continuava a esperar ali.
Seu consolo era aquela Lua que com ela aquele dia o vira e estava sempre ali dele a lembrá-la.
Infinitos outonos sozinha passara. Mais um ano a primavera chegou, desta vez trouxera visitas ilustres a sua ampla casa.
- Boa- noite, senhorita!
- Boa-noite, Senhor. Já nos avisaram que virias pernoitar aqui, por tua família conhecer o meu querido pai, sente como se fosse o teu próprio lar.
- Muito agradecido, posso sentar-me aqui? E desejo um pouco de vinho para minhas forças revigorar se não fores de mim mau juízo fazer.
- Claro que não, senhor. Há um vinho guardado de meu pai, especial para uma ocasião que pouco soube por que não o bebeu.
- Este vinho foi meu pai quem mandou naquela noite fatídica que o desastre sucedeu.
- Desastre? Não me recordo de nenhum desastre saber.
- Teu pai por certo não te contou, era uma quente noite de lua cheia e vinha o meu pai ao teu o compromisso de casório oferecer. Tua mão seria pedida ao mais belo moço que por este mundo viveu.
- Minha mão? Não sei de nada não!
- Tu nem soubeste, pobre donzela, porque naquela noite uma bala perdida o teu belo noivo abateu.
- Meu pai de tudo sabia então?
-  Só conhecia teu pai do amigo  o desejo da mão do filho mais velho oferecer.
- E..esse...f..filho...m..meu...p..pai o conheceu?
- Não, doce menina, morreu antes de seus olhos o ver.
- P...podes... d..dizer.. c..como era o noivo que meus braços não envolveu?
- Era belo e misterioso feito a noite... longos cabelos negros que por vezes o chapéu escondeu, mas era pelos olhos... aqueles olhos da cor do céu que quem uma vez viu, jamais, jamais os esqueceu.


  
  Texto de Della Coelho