sábado, 7 de janeiro de 2017

INCANSÁVEL ESPERA





 Meu Amor,
estou aqui!
SIM, para sempre te esperando!

Sei o quanto padeces nas jornadas tenebrosas,
enfrentas vales e montanhas rochosas.
Não te esqueças que em tua casa te espero,
faço quitutes e me enfeito para ti com esmero.

Como queria contigo nas estradas caminhar,
mas fui pelo destino impedida de, nestas Luas, tuas mãos afagar.
Não me importa que agora não consigas me aquecer;
suplico à brisa que meu canto contigo, nas noites, possa adormecer.

Meu Amado,
que partilhas comigo em silêncio o tão acalento esperado,
falta pouco para conseguirmos dos Anjos nossos sonhos realizados.
Tropeçaste e caíste em pedras pelo cansaço do caminho,
fita nossas Estrelas e apoia-te em meus braços que suavemente te aninho.

Eu sempre estarei aqui!
Olhando a noite, esperando por ti!
Mesmo que em todo Universo um dia resolva o Amor se calar,
gritarei que TE AMO nem que somente em uma simples cova possas vir a me encontrar.

Passo os dia na Esperança de que o Vento venha teu sorriso me devolver
e, enquanto isso, componho melodias para meu imenso carinho te envolver.

Meu Amor,
estou aqui,
em nossa casa,
te esperando...
Ouço tua voz nitidamente me chamando
quando a outros olhos pensam que estou simplesmente sonhando.

Em desespero, pela tua ausência, enlouquecida,
perdi-me por um tempo a buscar-te em terra apodrecida;
sozinha não tenho forças para tua face encontrar,
pois a sombra vem de ti os meus beijos afastar.

O que devo realmente fazer
é, em nosso Lar, à tua espera permanecer.
Jamais te confundas por canções que tenham nossas verdades alteradas,
que só farias atrasar ainda mais a tua tão difícil jornada.

O DEFINITIVO e IMUTÁVEL,
mesmo na rigidez do mais rigoroso inverno,
é que enraizarei aqui ansiando tua volta
para finalmente descansarmos felizes,
em nosso AMOR ETERNO!

Poema de Della Coelho
Imagem: google.com

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

PRESENÇA ANTIGA





Senhor, como longe de ti viver,
se tudo em mim teu renascer respira?
Tua já presença ao meu redor não vira,
pois perdida estava eu a arrefecer.

E agora estaco à estrada sem saber
se às tortuosas rochas aluíra,
se a esta amarga solidão anuíra,
ele, que me imbuia sem eu perceber.

Desfaleço nesta sina feroz!
Preciso ouvir de novo aquela Voz!
Antes que a minha terna face encrueça.

Liberta-me agora, Albatroz!
Leva-me rápido às mãos de meu Algoz!
Antes que nesta cova eu enrijeça.


Soneto de Della Coelho
Imagem: google.com

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

INSTINTO SUICIDA



Eis-me aqui novamente sob a Estrada D'samor.
Sonhava ter superado o cantar da Bela Flor.
Entretanto em derredor teus olhos me encontraram
resgatando-me aos sonhos que as desesperanças sufocaram.


Teu canto, porém, o sorriso arrefeceu,
ferindo friamente o calor do beijo meu.
Sequer imaginaste o rasgar do sofrimento
ao jorgar-me fora neste poço de lamento.

Resta-me agora em candeia agonizar,
para antigos demônios minh'alma expurgar.
No entanto de mariposa deve ser o sangue meu
que só quero desta vida lançar-me inteira no fel do abraço teu.

Poema de Della Coelho
Imagem: google.com

Conto - UMA HISTÓRIA DE DOR

           

I

            Para aqueles que acreditam é sim uma história real... para os que não acreditam ela não deixa de ser, pois os personagens estão bem vivos em minhas mais profundas memórias.
           Aconteceu há aproximadamente um século, em um vale no sul da França, região provençal.
           Ali nascera uma menina por nome Jacquelline, muito pequenina talvez pelos maus tratos que a mãe sofria do marido inclusive na gravidez dos dois filhos. O homem era doente de ciúmes e, após assassiná-la na frente dos filhos ainda pequenos, transferiu toda a sua fúria à filha do casal. Jacqueline, infelizmente para sua própria ruína, herdara todos os traços da mãe, exceto os olhos que os da pequena eram de um verde raro que muitas vezes a fazia parecer que era cega.
           O filho mais novo, Jacques, cresceu protegido e amado pela irmã; porém cresceu ouvindo nas madrugadas as risadas desesperadas de Jacque provocada pelo pai que lhe fazia cócegas enquanto a violentava na cama ao lado. Fora a defesa da filha a causa da morte da mãe.
            Sozinhos os filhos, entregues às mãos deste carrasco, foi gerada uma vida no ventre da já mocinha de 12 anos. Ajudado pela vizinha, conhecida na região pela sua "bruxaria" com ervas, fizeram um aborto que quase causou a morte da jovem menina.
           A prima rica de Nice, Adele, precisou intervir. Essa parente, tia da mãe da menina, a recolheu em um convento distante do vale e lá a jovem pôde recuperar-se pelas mãos das Irmãs de Caridade, estudar e desenvolver-se como uma criança normal.


                                                                 II

               No convento, logo no início, a menina sofria rejeição das outras crianças que se aproveitavam de sua fragilidade para hostilizá -la. Nesse ínterim, uma das jovens mais ricas e  populares do colégio, Alexia, recolheu Jacquelline em sua proteção e tornaram-se grandes amigas. Tratavam-se e sentiam-se como "Fratelli".
             Participavam de todas as atividades juntas. Frequentavam também o coral, mas destacavam-se mesmo era no teatro.
           Alexia era irresistível e impossível de controlá -la. Esta jovem arrastava  Jacquelline para suas peripécias e a obrigava a participar delas. No entanto, por seu charme e inteligência, jamais foram pegas nas traquinagens.
           Nas férias, Alexia ia para sua rica mansão na Itália e Jacquelline ia para a propriedade da prima  nos arredores de Nice.
            A casa era da família da mãe de Jacque, no entanto a senhora perdera os direitos de herança ao contrariar a família e sair de casa.
            Restara Adele que herdara a propriedade dos pais e administrava com afinco todo patrimônio que agora pertenciam a ela e ao irmão mais jovem. Então, era rica e poderosa, além de muito bela. Sem nunca ter sido contrariada, acostumara-se com os galanteios de todos os homens que a conheciam, inclusive de um jovem misterioso chamado Givan.
            Tratava-se de um homem rude, de cabelos negros e profundos olhos azuis. Era um tanto recluso, possuidor de um pedaço de terra nos arredores. Devido a seu retraimento, era chamado de vampiro pelas pessoas da região e o apelido rendia várias anedotas entre as moças que de fato eram atraídas pelo seu perfil charmoso e rústico.
             Jacquelline ainda não o conhecera, mas já ouvira a prima comentando que ele também já havia se rendido aos seus encantos.
           A menina possuía o luxo de crescer, pelo menos aparentemente, sem os traumas da infância. Era feliz ali e no colégio com Alexia. No campo tinha uma vida saudável na companhia da prima que admirava e amava. Divertiam-se muito juntas especialmente com um dos tombos de cavalo que Jacquelline sofrera e certa vez ficara furiosa com a menina quando esta, seguindo algumas atitudes ulta modernas para a época, cortara o cabelo rente ao pescoço.
             No entanto, Jacquelline carregava inconscientemente os traumas da terrível infância, a qual gerou na menina uma insuperável baixa autoestima especialmente frente à bela Adele.


                                                                 III


             No final dos anos do colégio, Jacquelline viera passar as férias em casa. Na mesma época estaria sendo realizado um grande baile nas redondezas, o que estava deixando especialmente eufóricas as mulheres com os preparativos para a tão especial ocasião. Provavelmente todos os ricos moradores compareceriam à festividade.
           Seria o primeiro baile de Jacquelline.
           Escolheu com capricho e cuidado o vestido. Era de um verde que refletia a beleza de seus olhos e agraciava seus movimentos; rendado, com os ombros à mostra como regia as mais finas vaidades da época. Seus cabelos escuros com suaves cachos presos nas laterais caíam pelos ombros emoldurando-lhe o rosto delicado. Inseparável, porém, de seu pescoço era o camafeu que trazia como única herança de sua falecida e adorada mãe.
           Era apresentada com orgulho pela prima que fazia questão de contar o talento de atriz da menina, o que a obrigou a fazer na festa uma pequena performance aos convidados. Felizmente depois esquecida devido aos galanteadores da prima, seguia rumo à sacada quando sentiu que um braço forte a segurava no sentido contrário. Impaciente e já pronta para afrontar quem a havia segurado de forma tão firme, perturbou-se prazerosamente ao deparar-se com dois pares de olhos azuis a convidá-la para dançar no baile. Jamais diria "não" àquele olhar. Já sabia tratar-se de Givan.
               Pouco falaram, mas dançaram a noite inteira para alegria e contentamento de Jacquelline que deixava o baile perdidamente apaixonada. Mas, importante deixar bem claro que, junto à memória deliciosa da força daqueles braços, havia a insegurança que já a acompanhava. Em seu pensamento, não esquecera a frase de Adele de que ele também a cortejara. Jacquelline então pensou que ele a buscara somente porque a prima estava acompanhada.
                     Só compreenderia a falta de verdade desse fato quando fosse tarde demais para ela.
                    Givan passou a frequentar mais a casa delas e buscava sempre estar perto de Jacquelline, no entanto a prima sempre estava junto deles também. Adele ainda não havia compreendido as verdadeiras intenções do rapaz que, como Jacquelline, saíra perdidamente apaixonado por ela desde o baile.
                   Almas gêmeas é o que muitos espiritualizados diriam que eram.
                  Jacquelline gostava de encontrar lugares isolados para refugiar-se. Um de seus preferidos era ficar na beira do rio próximo a um velho moinho nos limites da propriedade. Givan buscou-a lá certa vez e ali passaram a encontrarem-se sempre.
                 Conheceram-se mais profundamente, era delicioso ouvi-lo falar de sua vida, de suas alegrias e ela já reconhecia algumas de suas tristezas. Deram o primeiro beijo próximo ao moinho e foi por ali, felizes e abraçados pela relva que entregou-se a ele pela primeira vez.
                  Para Givan, recluso com os outros e entregue ao amor de Jacquelline, a felicidade só aumentaria quando soube pela prima que a amada estava esperando um filho dele. Para Jacquelline colocar Adele a par desse acontecimento foi através de muita culpa e muito sofrimento. Culpa por ter escondido o romance e sofrimento pela insegurança que aumentava devido à importância de seus sentimentos.
                  Adele acertou a data do casamento com Givan após a conversa "séria" que teve com ele. Não sem antes ter falado com Jacquelline expondo inocentemente a ela que ele poderia estar se casando somente por causa dela estar grávida. Na mente insegura de Jacque era a confirmação de que ele não a amava, mas ficaria com ela pelo filho.
                 Em seus pensamentos delirava... "Como ela poderia concorrer com a prima?! Impossível!!! Bela, rica e poderosa!" A baixa autoestima da jovem mãe jamais a deixaria compreender que Givan estava seriamente apaixonado  desde que a vira pela primeira vez. Esperara por ela a vida inteira e faria de tudo para que ela nunca saísse de sua vida.  A esposa jamais conseguiria sentir em vida a imensidão do amor que ele nutria por ela.

                                                                    IV

              O casamento aconteceu em uma manhã ensolarada na capela da propriedade de Adele. Jacquelline estava ornamentada pelas flores campestres e vestia um belo vestido branco de ombros caídos. Estava radiante e bela. Muitos ainda nem percebiam o pequeno volume que ainda não aparecia em seu ventre.  Entrar na Igreja e ver Givan a olhá -la foi de uma emoção impossível de ser descrita em palavras. A cada passo que dava sabia seguir em direção à sua felicidade - tornar-se esposa e pertencer ao homem que amava. Jacquelline não se sentia digna de tamanha realidade! Ao dizer "sim" ao juramento de amá-lo até que a morte os separe sabia que da parte dela seria a mais profunda verdade e mais, sabia que, se houvesse vida após a morte como muitos acreditavam, continuaria amando-o pois o que sentia era impossível de ser apagado.
                 Givan não só acolhia em seus braços a sua esposa, mas ao seu filho que ela carregava. Ele era sem dúvida alguma a personificação do Amor. Pensava que tudo que fizera, tudo que sofrera e tudo que sonhara não poderia tê-lo levado a nenhum outro lugar senão a ela, a mulher que ele, com todas as suas forças, esperara. Vindo de família católica, esse italiano fizera questão do religioso. Compreendia que ali no altar selaria no céu o que seus corações já haviam selado em terra.
                Seguiram já na primeira noite para o Mar em  Côte D'Azur. Ficaram em uma pequena casa em uma praia afastada de tal maneira que parecia particular aos enamorados. Ali caminhavam longamente abraçados próximos às águas. Por vezes beijaram-se e amaram-se sob aquele céu estrelado ouvindo o som do Mar. Givan pouco declarava em palavras o que sentia em sua alma, mas uma vez sob as Estrelas, seus lábios falaram: "Se alguma vez duvidar de meu amor por você, é só olhar o céu à noite; enquanto houver Estrelas no céu, ainda haverá o meu amor por você. "
                    Jacquelline, em toda a sua existência, jamais deixou de ver o céu à noite.
                    Retornaram à realidade e iniciaram felizes e unidos a sua vida de casados. Jacquelline passava os dias a cuidar da casa e do quintal, enquanto Givan ia para a lida com as plantações e os animais.  Possuia alguns trabalhadores que o ajudavam na propriedade. Havia curiosamente na casa deles, o cultivo de laranja vermelha para o consumo próprio.
                    A família do proprietário permanecera na Itália, haviam recebido somente a visita de uma irmã mais velha, porém pouco sobre isso se falava. Parece que Givan ainda bem jovem havia tido um desentendimento com o pai e viera ali refugiar-se.
                    A barriga de Jacquelline crescia a cada dia e o carinho e a presença de Givan também. O que a jovem mãe mais adorava era quando ele chegava cansado do trabalho, sentava em sua poltrona e ela aninhava-se em seu colo. Assim passavam horas enquanto ele descansava acarinhando ora seus cabelos, ora o ventre já crescido. Sentia e estava sempre preocupado com o avanço da gravidez. Acompanhava cada mudança, cada gesto do nenê e cada passo de sua esposa até que chegou a hora do Adrian nascer.
                    Ele estava sempre ali para ela e foi infinita a felicidade de entregar o filho para que ele muito emocionado o segurasse. As lágrimas escorriam em seu rosto de tanto nervoso suado. Acompanhara tudo do lado de fora e quando pôde entrar e vê-la bem com o filho em seus braços não conseguiu conter a emoção que despontava.
                   Adrian era a união física dos dois, possuía cabelos escuros e brilhantes olhos verdes. Parecia tanto com um quanto com o outro. Se o casal realmente se transformasse em uma só carne, essa uma só carne seria como o Adrian.
                   Como se amaram os três!!!
                   Givan ajudava o tempo todo na criação do filho. Às vezes brigavam como todo casal, Jacquelline tinha muito ciúmes dele, especialmente da prima. Mas procurava sempre esconder esses sentimentos.
                    Talvez se tivessem conversado...
                    Na casa, o dia a dia seguia com suas atividades. Adrian foi crescendo e estava cada vez mais ao pai apegado. Era natural Givan chegar com ele sentado em seu pescoço vindo de alguma brincadeira no quintal com o filho, ali na casa estavam sempre juntos.
                      Por alguns momentos, às vezes Givan se ausentava para algum negócio na redondeza. Eram as épocas que Jacquelline mais temia, tinha pânico dele deixá-la.
                    Givan era bem mais velho que Jacque e ela uma criança que casou-se aos 16 anos. Muitas coisas de casa e até com o filho ele mesmo a ensinava. Ela sentia-se por vezes uma incapaz, mas esforçava-se ao máximo para agradá-lo.
                     Os dois acompanhavam com muito carinho o desenvolvimento de Adrian... o primeiro riso, os primeiros passos, as primeiras gargalhadas!
                     Adrian desenvolvia também a fala, falava frases e palavras tão engraçadinhas que encantava.
                    Chegamos em seus 4 aninhos de vida.
                    É preciso relatar aquele dia sombrio.
                   Jacquelline acordara como sempre fazia e ia cuidar do filho e dos afazeres da casa enquanto o marido saía para a lida. Naquele dia não foi diferente. A única coisa de diferente é que Adrian foi no colo da mãe para ela tirar água do poço.
                    Chegaram   na beirada e enquanto com uma mão a jovem mãe segurava o filho com a outra subia o balde pesado com a água. A criança tentava virar-se e brincar com a corda que subia e já maiorzinho e rápido de repente !!! Jacquelline ainda tentou segurá-lo ficando em sua mão somente um de seus sapatinhos .
                      Adrian caíra dos braços da mãe no poço e morrera afogado aos quatro anos de idade.                
                      Um dos trabalhadores que estava nas redondezas ouviu os gritos de desespero da mãe e chegou para ajudá -la. Enquanto tentava resgatar o menino  que não sabia já estava sem vida, Jacquelline agachou-se transtornada agarrada ao sapatinho.
                     Givan encontrou-a dessa forma e o filho inerte fora do poço.
                      Jacquelline não conseguia olhá-los, já enlouquecera.
                     Nem conseguiu  memorizar os rituais fúnebres pelos quais passara, lembrava-se somente até o momento em que Givan no poço chegara. O resto tudo tinha se apagado de sua memória.
                     Voltava o dia a dia, para ela a tortura da convivência com a perda  e com a imensa culpa que sentia. A culpa também de ter matado, além de seu próprio filho, o filho de Givan.
                      Não precisaria ele abandoná -la, ela mesma faria isso por ele.
                     Não conseguia suportar  a dor que via nos olhos do marido.
                      Então aproveitou-se de um dia que Givan saiu para a lida, pegou um pareio de roupa, montou na charrete e saiu para sempre da vida de Givan.

                                                                 V

               Givan sabia do sofrimento imenso da esposa e sofria por ela também. No entanto o que ele não conhecia era a insegurança que ela sentia em relação aos sentimentos dele. O que passou pela sua cabeça e a forma como ele compreendeu as coisas foi exatamente o contrário do que acontecia no coração e na mente doentia de Jacquelline. Compreendeu que a esposa não suportou a dor do filho e teve de afastar-se dele, porque a sua presença a lembrava de seu sofrimento.
                  Todos os dias depois da morte de Adrian, tomava diversos cuidados para que ela se sentisse melhor. Porém a mulher via tudo de forma completamente diferente . O olhar de dor que via nos olhos dele como se dissesse: " você matou o meu filho!" era na verdade : " sofro em ver-te sofrer desse jeito, mon amour!" 
                   Jacquelline, devido aos seus traumas, compreendia tudo diferente. Se soubesse o desespero que ele sentiu nas poucas horas que teve de se ausentar de casa devido a uma emergência no campo, ela jamais teria partido! Ao retornar e não encontrar Jacquelline em casa, saiu em desespero em busca da esposa. Passou dias a cavalo procurando-a nos vilarejos da região.
                    No primeiro dia à noite, Jacquelline já havia chegado nas proximidades de Nice. Com o dinheiro que vendera a charrete conseguira alugar um fétido quarto na parte mais sombria da cidade.
                   Para suportar a dor da perda das duas pessoas que mais amava, entregou-se à bebida e gastou seus últimos centavos sentada sozinha em um dos cabarés mais movimentos daquele local. Para dar continuidade a seu bálsamo, teve de usar seus dotes artísticos adquiridos no convento e passou a cantar algumas noites no cabaré em troca de alguns trocados. Em uma dessas noites Givan a encontrou, já estava anestesiada.
                   Ela teve de mandá  -lo embora dali, sabia-se incapaz de suportar a culpa vendo a dor nos olhos dele. Nem entendia ao certo porque ele viera buscá - la depois de tudo que ela fizera. Para ela era impossível acreditar no amor que ele sentia.
                   Alguns dias e ele a acompanhava de longe, reservado, calado... e aqueles olhos! Aqueles malditos olhos que ela adorava.  A bebida já não fazia tanto efeito, precisava de mais!!!
                    Cantava as canções de dor para ele e se perdia as vezes na fantasia e na realidade pelo que tomava... mas precisava mais... não suportava!!! Aqueles olhos a procuravam... aqueles malditos olhos que ela adorava.... aqueles olhos que ela amava...aqueles olhos que ela não suportava!!! Precisava mais... a realidade transbordava e era insuportável!!!
                       Naquela noite havia um homem ali próximo... os olhos se foram mais cedo... Jacquelline foi embora sozinha para casa... era próximo o quarto, alguns passos... uma botica aberta e aquele frasco. Precisava mais, seria definitivo e acabava... tinha ainda algumas moedas, por sorte daria certo... o dinheiro dava, conseguiu o frasco com a senhora.... enfim chegou até o quarto , desabou exausta na cama e abrindo o frasco de cianureto sorveu todo e de uma só vez.


Texto de Della Coelho
Imagens: google.com