quarta-feira, 17 de maio de 2017

SALTO AO VÁCUO



         Viver não é uma tarefa fácil! Acho que é bem difícil mesmo!

         Como mulher, ex-balzaquiana, ainda estou aprendendo como as coisas realmente funcionam.
         Chegamos a um ponto em que conflitos a serem resolvidos são uma constante, não há mais tempo para o amanhã, o amanhã está mais próximo de não chegar agora.
         E, então, tal qual uma feiticeira, a vida parece que percebe essa relatividade temporal e apressa-nos a resolver aquilo que gostaríamos de poder deixar para depois!
         Não!!! A resposta é urgente... é o hoje!! Você já cresceu, não pode mais ficar na cama em dia de chuva, é preciso sair e trabalhar ... mesmo despeçada ou simplesmente em frangalhos!

         É hora de ir!

         E onde estão os sonhos de acerto... de amor... de futuro.... ?

         Aquele futuro é o agora e mostra-se muito diferente do que se esperava... a frustração então nos impele a não mais sonhar... é mais seguro assim.
         Mas é preciso viver, seguir em frente, mesmo sem do amanhã nada esperar.
         E, então, você começa a perceber que o azul com que sonhava é transparente ou, simplesmente, inexistente... assim, chegou a hora de realmente acordar!
         Portanto, mesmo com as marcas da vivência, você percebe que andou para trás! E tem de “novamente” recomeçar...

         À princípio ( não dá pra falar “a priori” sem mencionar uma amiga) o medo tende a nos estagnar, entretanto aquela magia nos obriga a caminhar! É como se abrisse as portas de um helicóptero e nos empurrasse para o salto. Claro que a mão divina nunca nos deixaria sem um paraquedas; mas cabe a nós sabermos usá-lo.
         Sinto-me como se estivesse em queda livre, buscando os botões ou cordas – ainda não aprendi - que possam amenizar minha caída.

         O que me espera? Não sei, não sabemos.

         E tenho visto isso como algo bom, nada é premeditado completamente, nada é definitivo e uma vida pode não ser arruinada se algo não deu certo - mesmo que seja o que sonhou uma vida inteira.
         É o momento das perdas, perda de conceitos, perda de preceitos e, felizmente no meu caso, perda também de preconceitos.

         O momento de ver o mundo do alto e saber que está indo diretamente para o chão dependendo de um simples ato - talvez de puxar uma corda- para não se esborrachar faz com que repensemos nossas atitudes e busquemos rapidamente uma saída que evite a nossa aniquilação.
         É a hora que normalmente muitos buscam apoio em alguém; mas, sinceramente, vejo isso como uma forma de fraqueza , de postergação; é necessário enfrentarmos nossos fantasmas sozinhos para nos livrarmos deles definitivamente!!! Afinal, ninguém os conhece melhor do que nós mesmos.

         Recapitulando... seu mundo foi simplesmente destruído... Por quem?! Ora, pelo tempo! Aquele mesmo tempo que era visto como realizador de nossos anseios adolescentes.

         Como ele faz isso?! Simples, faz com que vejamos as coisas como elas realmente são... sem fotoshop... simples assim.

         Enfim... com tudo dilacerado e o mundo adulto exigindo seu posicionamento, não nos resta outra alternativa a não ser enfrentar.

         Para onde vamos em queda livre? Para o chão, claro!

         A questão não é essa! Isso é o inevitável!
         A grande questão, agora que estamos descendo, é como chegarmos lá? Se esborrachando ou saboreando a calma do vento e a beleza da paisagem vista de cima!

         Supondo que seja a primeira, passaríamos toda a travessia buscando sem sucesso a cordinha que nos salvasse. O desespero tremeria minhas mãos, inundaria meus olhos e cada vez mais o chão se aproximaria e minhas chances seriam anuladas. Talvez nem o sentisse de encontro ao meu corpo tamanha a agonia para fugir da fatalidade.

         Já sendo a segunda, seria fundamental primeiramente tentar manter a calma ante o desconhecido, buscar algum conhecimento de paraquedismo para ter ainda mais chances de descida tranquila. Poderia, então, planar saboreando as imagens, os cheiros... saboreá-los de um ângulo jamais visto anteriormente por mim. Muitos poderiam ser os prazeres, claro que frio e um pouco de medo provavelmente me envolveriam, porém desta forma seria possível conhecer telhados que nunca havia visto, compreender a amplidão de um campo, a insignificância de um arranha-céu. Pisando novamente o solo, teria voltado de uma viagem com muito mais conhecimento que feridas a serem curadas.

         Esta é queda que me proponho seguir, ainda estou tentando manter a calma, estou aprendendo a usar os batoques e em breve soltarei o pilotinho.

        Texto de Della Coelho


Nenhum comentário:

Postar um comentário